CIVILIZAÇÃO, TRONCO DE ESCRAVOS

Em “Civilização: tronco de escravos”, a autora desvela e denuncia os “males da civilização” moderna, ocidental, capitalista e cristã. Ressalta que, longe de promover a emancipação dos indivíduos, dentre eles, as mulheres e os oprimidos em geral, a civilização e sua ideia mestra de progresso aprisionam a humanidade. A ordem civilizadora e civilizatória domestica a sociedade, mantendo-a refém dos interesses do capital e do patriarcado, instalados e entrincheirados nos interstícios do Estado e da Igreja.

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CIVILIZAÇÃO, TRONCO DE ESCRAVOS

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CIVILIZAÇÃO, TRONCO DE ESCRAVOS

Maria Lacerda de Moura

Bem oportuna a republicação de “Civilização: tronco de escravos”, obra de Maria Lacerda de Moura, cujo lançamento foi feito pela editora Civilização Brasileira, em 1931. A iniciativa, sem dúvida louvável, integra o projeto de pesquisa desenvolvido pelas historiadoras Cláudia Maia (UNIMONTES/MG) e Patrícia Lessa (UEM/PR) com o objetivo de estudar e divulgar o pensamento daquela intelectual e ativista, rebelde e insubmissa. Uso, não de forma descuidada, tais identificações, pois ela mesma, embora refutasse rótulos e aprisionamentos, reconhecia-se como “libertária individualista” (1928).

Mobilizadas pelo interesse e desafio comuns de colocar em cena, de historicizar a construção do pensamento de Maria Lacerda, de jogar luzes nos e sobre os “buracos negros historiográficos”, sobretudo em relação à autoria feminista e/ou das mulheres, as duas historiadoras cumpriram, com êxito, o proposto. Não por acaso, elas investigaram a produção daquela autora no período de 1928 a 1937, justamente a que se mostra a mais extensa e profícua. Escolha, portanto, acertada, pois o livro em questão, produzido em 1930/31, bem traduz a libertária visão de mundo de Maria Lacerda. Ao expor nesse livro, e também em vários outros de sua autoria, suas originais ideias, críticas e projetos, a pensadora revela-nos uma diferente e radical leitura emancipadora do mundo, numa inusitada proposta de pensamento/ação, cujo vanguardismo não se pode negar. Ao explicitar sua localização na sociedade brasileira da época, ela deixa-nos ver e entrever, em suas linhas e entrelinhas, uma face até então insuspeita dos feminismos das primeiras décadas do século XX, desnudada e publicizada pela historiada Miriam Moreira Leite, sua primeira biógrafa (1984).

A republicação da obra integra, por certo, um projeto político feminista mais amplo, compartilhado por aquelas duas investigadoras, empenhadas e solidárias ao esforço acadêmico de conferir visibilidade e dizibilidade historiográficas à experiência histórica das mulheres, brasileiras ou não. Afinal, retirar as mulheres do silêncio discursivamente construído acerca de seu pensamento/ação, revelando sua presença e protagonismo na história, na ciência, na cultura e na política, é exigência colocada aos do ofício, feministas ou não. Trata-se, porém, de gesto político incontornável às historiadoras feministas porque investe justamente na localização das mulheres como pessoas, como indivíduos, como seres políticos, com espaço de fala e lugar de sujeito. Posições, projeções e perspectivas desenhadas e defendidas, sem concessões, por Maria Lacerda em seus ditos e escritos, como bem identificaram e sublinharam as principais estudiosas de seu protagonismo histórico, dentre elas, Miriam Moreira Leite (1984, 2002, 2004, 2005, 2013); Margareth Rego (2007a, 2007b, 2012); Claudia Maia e Patrícia Lessa (2015 e 2018).

Civilização: tronco de escravos” foi livro pensado e escrito em momento singular da vida da autora, quando ela, em sua “virada existencial”, decide ir viver em Guararema, comunidade agrícola do interior de São Paulo, onde permanece por quase uma década (1928-1937). Ali, naquela comunidade alternativa, ela vive e convive com ideias, ideais e práticas anarquistas. Ali, naquele romantizado sossego do campo, Maria Lacerda se esculpe como pessoa livre, como intelectual crítica e posicionada, como incansável, e também muitas vezes incompreendida, ativista; enfim, como protagonista de si, de sua própria história. Trata-se de “fabricação de si” engendrada em função de suas escolhas políticas e em meio às desigualdades e aprisionamentos da ordem social capitalista, burguesa, patriarcal e cristã de seu tempo, que ela critica, rejeita e recusa; resiste, enfim, a nela se localizar. Como a mesma reconhece em artigo publicado em 1928:

Não sou feminista, já o declarei. Não sou comunista, não pertenço a nenhum partido político, não pontifico nem sirvo em nenhuma grei. Não exerço nenhum apostolado religioso ou social, não rumino em nenhum rebanho acadêmico ou materialista, não bebo a água da vida de nenhuma seita filosófica ou escola científica filológica ou estilizada, clássica ou modernista. Livre de muleta. Livre de igrejas […][1]

Nesse lugar de enunciação e de localização e também de desatrelamento a qualquer partido, doutrina, escola, cânone, ou apostolado, a insubmissa intelectual declara-se, apesar e por conta de tal posicionamento, como “libertária individualista”. Sem dúvida ela se aprisiona, e também, ao mesmo tempo, se liberta nessa/dessa grade identitária, pois seus discursos e práticas apontam para outras direções, como revelado nas consistentes análises de Rago e Leite que a inscrevem no “feminismo mais libertário” e no “feminismo utópico”, respectivamente. Penso que Maria Lacerda, “espírito irrequieto e atormentado”, como se reconhece em carta à amiga Ana de Castro Osório (1926), foi um pouco disso tudo; do que afirma e do que nega, se pensarmos a identidade do sujeito não como algo fixo, estável, mas como uma busca, uma posição instável e cambiante em relação às inúmeras possibilidades de pertencimento.

Livre de muletas, livre de igrejas, livre de peias e amarras, é como Maria Lacerda pensa o mundo, escreve sobre ele, e nele se localiza. Em “Civilização: tronco de escravos”, a autora desvela e denuncia os “males da civilização” moderna, ocidental, capitalista e cristã. Ressalta que, longe de promover a emancipação dos indivíduos, dentre eles, as mulheres e os oprimidos em geral, a civilização e sua ideia mestra de progresso aprisionam a humanidade. A ordem civilizadora e civilizatória domestica a sociedade, mantendo-a refém dos interesses do capital e do patriarcado, instalados e entrincheirados nos interstícios do Estado e da Igreja. A liberdade, fundamento e requisito do existir humano, é sequestrada de cada indivíduo e, por desdobramento, da sociedade em geral. Sob tal aspecto, a tão projetada e perseguida “civilização” nada mais é do que um “tronco de escravos”, um constructo humano que opera para sequestrar a liberdade das pessoas, sobretudo a das mulheres e dos operários, de ambos os sexos.

Organizado a partir de tais eixos estruturantes, o livro reúne um conjunto de reflexões, mais ou menos dispersas, sobre temas e assuntos que mobilizavam a opinião pública à época, naquele contexto impreciso e convulsionado pelas crises que antecederam a Segunda Guerra Mundial: o progresso tecnológico, material e das ciências; a corrida armamentista; a paz armada; o crescimento do fascismo; o debate sobre a educação nacional; a política cultural; a cultura literária; prostituição, família e a política higienista e moralizadora do governo Vargas; a sociedade de consumo. Na escolha e abordagem dos temas, a autora expõe e sublinha seu modo independente, original e libertário de pensar o mundo “civilizado” e, nele, a sociedade brasileira. Nadando contra a corrente, a “pantera” deixa suas “marcas” nos textos que escreve: pacifista, antimilitarista, antifascista, antimoralista, anticapitalista, naturalista, espiritualista, anarquista, individualista. Uma mulher, sem dúvida, como mostram as estudiosas de sua vida, bem à frente de seu tempo e na vanguarda dos movimentos feministas.

Tamanha riqueza, além das potencialidades de reflexão e ação que a narrativa de Maria Lacerda encena e encerra, justificam, sem dúvida, a republicação do seu livro. Oportuna também, e principalmente, se considerarmos o instável e preocupante momento político que vivemos sob o governo Jair Bolsonaro. Observa-se uma anunciada ameaça ao funcionamento das instituições republicanas e democráticas, em meio à crescente e perigosa polarização ideológica e partidária. A sociedade encontra-se cindida e dividida. Vivemos, sem dúvida, como bem avaliou João César de Castro Rocha (2020), numa “guerra cultural bolsonarista”, que se alimenta, se beneficia e reverbera da/na retórica do ódio. Não por acaso, torna-se cada vez mais visível um cenário de afloramento, e mesmo de explosão, do desejo perverso de aniquilação do outro, do diferente, visto como inimigo a ser eliminado.

Penso que ler/reler “Civilização: tronco de escravos” no atual momento é experiência que nos instiga e nos desafia à ação reflexiva e política de (re)pensar nossa localização no Brasil e no mundo e, desse lugar social e histórico, projetar horizontes outros para cada um de nós e para a sociedade brasileira. Horizontes, esses, desenhados com as cores, formas e tintas do respeito e empatia pelo outro, da igualdade, da filoginia, do diálogo e da liberdade. Convidamos você, leitor/a, a dialogar com o pensamento inquietante e libertário de Maria Lacerda e, como ela, investir na travessia para um mundo melhor, mais livre e mais justo.

Profa. Diva do Couto Gontijo Muniz

Pesquisadora Plena PPGHIS/UnB

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