O Bem Viver

O mundo precisa de mudanças radicais.

Descrição

Necessitamos de outras formas de organização social, de outras práticas políticas. O Bem Viver é parte de uma longa busca de alternativas forjadas no calor das lutas indígenas e populares. São propostas por muito tempo invisibilizadas, surgidas de grupos marginalizados, excluídos, explorados e até mesmo dizimados, que agora convidam a romper com ideias supostamente indiscutíveis, como “progresso” e “desenvolvimento”, pautando a construção de modos de vida baseados nos Direitos Humanos e nos Direitos da Natureza, libertos da ânsia colonizadora e acumuladora do capital. Nesta segunda edição revisada e ampliada, Alberto Acosta complexifica a análise desse conceito revolucionário.

 

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Nas últimas décadas, o conceito de Bem Viver atravessou fronteiras geográficas, epistemológicas e políticas, deixando de ser uma formulação situada no pensamento indígena andino-amazônico para se tornar um horizonte de disputa e reinvenção em diversos contextos. E encontrou no Brasil terreno fértil para uma reinvenção política fundamentada em experiências históricas de resistência.

Comunidades indígenas, negras e quilombolas, embora atravessadas por processos contínuos de colonização, exploração e opressão, jamais deixaram de praticar modos de vida comunitários que hoje reconhecemos como Bem Viver. São memórias, valores e ações que sustentam outros pactos de convivência social, econômica, ambiental e política, na contramão da lógica do desenvolvimento e do progresso capitalistas.

No Brasil, o Bem Viver passa a ser reivindicado inicialmente pela luta indígena, mas logo é articulado por outros sujeitos coletivos territorializados — quilombolas, ribeirinhos, sem-terra — e por campos políticos diversos, como os feminismos, os ecossocialismos e os setores acadêmicos críticos. Contudo, é em 2015 que o conceito ganha fôlego e densidade política, ao ser incorporado à Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver, que levou mais de cem mil pessoas a Brasília.

— Juliana Gonçalves, na orelha

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Para falar do Bem Viver, é preciso recorrer a experiências, valores, propostas e práticas de povos que se empenharam em viver harmoniosamente entre si e com a Natureza, e que possuem uma história longa e profunda, ainda bastante desconhecida e até mesmo marginalizada pelos círculos de poder. Esses povos resistem, de diversas maneiras, a um colonialismo que já dura mais de quinhentos anos. E são justamente as suas visões de mundo que nos permitem imaginar um futuro diferente, com propostas que poderiam alimentar e conduzir os debates globais em outra direção.

A matriz das reflexões e conclusões contidas nestas páginas emerge dos povos originários — uma grande fonte de informações e ensinamentos, embora ainda incompreensivelmente marginalizada. Trata-se de “mundos”, no plural, nos quais não prima a cultura escrita — algo que talvez possa limitar a difusão de seus ensinamentos, mas certamente não a impossibilita. Esses mundos estão vivos em diversos cantos do planeta e, decerto, na memória de muitas culturas, inclusive nas que hoje são consideradas “avançadas”.

Este livro não compila receitas nem modelos. Não pretende ser um manual do Bem Viver ou oferecer recomendações de autoajuda que contribuam para instaurar o discurso do entusiasmo, da superação e da vontade pessoal como ferramenta de mudança, ignorando as estruturas socioecológicas. Tampouco aceita uma noção estrita de “felicidade”, usada para legitimar estilos de vida supostamente “corretos”. Este livro expõe e analisa problemas, ao mesmo tempo que propõe algumas soluções, buscando abrir espaço para o debate. Aqui se questiona sem rodeios o patriarcado e o colonialismo enquanto pilares da civilização do capital, a qual deveria ser superada por caminhos comunitários. Definitivamente, estas páginas pretendem sacudir as inércias e as leituras ortodoxas. A meta deste livro é incomodar. […]

Esta 2ª edição brasileira, integralmente revisada, corrigida, ampliada e atualizada, apresenta, portanto, um texto renovado, com o qual se pretende novamente provocar a reflexão e a crítica, elencando ideias e propostas que contribuam para a construção de outros mundos inspirados na justiça social e ecológica, como um exercício ético de radicalização permanente da democracia. Nesta nova versão, expõem-se temas tratados em edições anteriores e outros inéditos, na tentativa de ampliar a compreensão do Bem Viver — o que é natural, pois, como dissemos, este livro é parte de um processo permanente de construção.

— Alberto Acosta, na Introdução

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O Bem Viver

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